Fui demitido: uso a rescisão para quitar dívidas ou guardo?

A rescisão parece muito dinheiro, mas tem de durar até o próximo emprego. Veja como decidir quanto guardar e quais dívidas vale quitar com ela.
A demissão costuma vir com um valor que muita gente nunca viu de uma vez na conta: rescisão, multa do FGTS, saldo do fundo. Para quem está endividado, a tentação é usar tudo para limpar o nome e "começar do zero". Às vezes é uma boa ideia. Muitas vezes, não.
O motivo é simples: esse dinheiro precisa pagar as contas até você voltar a ter salário, e ninguém sabe quanto tempo isso vai levar. Quitar todas as dívidas e ficar sem nada no terceiro mês de procura de emprego costuma terminar em dívida nova, mais cara que a anterior.
Saiba quanto você vai receber de verdade
Na demissão sem justa causa, o trabalhador recebe o saldo de salário, o aviso prévio (trabalhado ou indenizado), o 13º proporcional, as férias vencidas e proporcionais com um terço a mais e a multa de 40% sobre o FGTS. Também pode sacar o saldo do FGTS e pedir o seguro-desemprego, que paga de três a cinco parcelas, conforme o tempo trabalhado e quantas vezes você já pediu.
A empresa tem até 10 dias depois do fim do contrato para pagar as verbas rescisórias.
Atenção a duas situações que reduzem esse valor. Se você aderiu ao saque-aniversário do FGTS, na demissão recebe a multa de 40%, mas o saldo do fundo continua bloqueado. E se antecipou o saque-aniversário com um banco, parte desse saldo já está comprometida com o empréstimo.
Se você tem consignado CLT
Quem tem empréstimo consignado com desconto em folha precisa olhar o contrato antes de tudo. A lei permite que até 35% das verbas rescisórias sejam usadas para abater o saldo do consignado, e os contratos mais recentes podem usar parte do FGTS e a multa rescisória como garantia.
Isso significa que a rescisão pode chegar menor do que você calculou, e que o saldo restante do empréstimo continua existindo e passa a ser cobrado por boleto ou débito. Este texto explica o que acontece com o consignado CLT na demissão.
Primeiro a reserva, depois as dívidas
Antes de pagar qualquer dívida, calcule quanto você precisa para atravessar o período sem salário. Some as despesas mensais essenciais (moradia, contas, mercado, transporte, remédios) e multiplique pelo número de meses que você acha razoável para se recolocar na sua área. Seis meses é uma referência prudente. Depois desconte o que o seguro-desemprego vai pagar.

Esse valor fica guardado num lugar com liquidez diária, separado da conta do dia a dia. O que sobrar é o dinheiro que pode ir para as dívidas.
Parece conservador, mas é o que impede o ciclo mais comum: quitar o cartão, ficar sem dinheiro no quarto mês e voltar a usar o mesmo cartão, agora sem renda.
Um exemplo com números
Imagine alguém que recebeu R$ 9.000 de rescisão, tem R$ 15.000 de FGTS somando saldo e multa, e terá direito a quatro parcelas de seguro-desemprego de R$ 2.000. As despesas essenciais são de R$ 3.200 por mês. As dívidas são R$ 6.000 no rotativo do cartão e R$ 2.500 no cheque especial.
Para seis meses, a pessoa precisa de R$ 19.200. O seguro-desemprego cobre R$ 8.000. A reserva a separar é de R$ 11.200.
Ela tem R$ 24.000 no total. Separando os R$ 11.200, sobram R$ 12.800.
Rotativo e cheque especial são as dívidas mais caras do mercado e costumam ter bons descontos para pagamento à vista. Se a negociação conseguir, por exemplo, quitar os R$ 8.500 por R$ 6.000, a pessoa elimina as duas dívidas e ainda fica com R$ 6.800 a mais de folga, que pode reforçar a reserva.
Os valores são ilustrativos. O raciocínio é o que importa: primeiro proteger os meses sem salário, depois atacar as dívidas mais caras.
Quais dívidas vale quitar e quais esperar
As primeiras da fila são as de juros mais altos: rotativo do cartão, cheque especial, empréstimos pessoais caros e dívidas com agiota. Use o pagamento à vista para pedir desconto. Este guia mostra como conseguir desconto para quitar à vista.
Depois vêm as contas que podem gerar corte ou perda de um bem essencial: aluguel, luz, água, financiamento do carro que você usa para trabalhar.
Dívidas baratas, parceladas e em dia, como um financiamento com juros baixos, podem continuar sendo pagas normalmente. Não há vantagem em antecipar uma dívida barata e ficar sem caixa.
Se há várias dívidas e o dinheiro não dá para todas, compare os métodos bola de neve e avalanche para escolher a ordem.
O que evitar nesse período
Evite emprestar dinheiro da rescisão para parentes, por mais urgente que pareça. Você vai precisar dele. Evite também abrir um negócio por impulso com o FGTS sem ter testado a ideia antes. E desconfie de ofertas de crédito que aparecem logo depois da demissão: com a renda zerada, as condições tendem a ser piores. Se mesmo assim precisar de crédito, leia antes sobre empréstimo para negativado desempregado.

E, assim que voltar a ter salário, recomponha a reserva antes de qualquer outro gasto novo. Este texto ajuda a montar uma reserva de emergência do jeito certo.
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